O primeiro heresiarca de que fazem menção as tradições da Igreja foi um taumaturgo chamado Simão, o Mago. Judeu na origem, supõe-se que nasceu no burgo de Giton no país de Samaria. Teve por mestre o sectário Dositeu, que se dizia enviado de Deus e o Messias anunciado pelos profetas. Simão aprendeu não somente a arte dos prestígios mas ainda certos segredos naturais que pertencem à tradição secreta dos magos: ele possuía a ciência do fogo astral (luz astral). Tinha também o poder de elevar-se no ar (levitação). Ele magnetizava à distância os que nele acreditavam e lhes aparecia sob diversas figuras. As coisas naturalmente inanimadas moviam-se ao redor dele ...e muitas vezes, quando ele queria entrar em uma casa ou dela sair, as portas rangiam, agitavam-se e acabavam abrindo-se por si mesmas.
Simão operou estas maravilhas diante dos nobres do povo de Samaria; elas foram exageradas e o taumaturgo passou por um ser divino. Como ele alcançou tal poder por excitações que perturbavam sua razão, ele mesmo julgou-se digno de honras divinas e desejou as adorações do mundo inteiro. Suas crises, ou êxtases, produziam sobre seu corpo efeitos extraordinários. Ora viam-no pálido, encovado, alquebrado, qual um velho que vai morrer; ora, um fluido luminoso revigorava seu sangue tornando suave seu rosto de modo que parecia rejuvenescido de repente. ...Por toda parte só se falava de seus milagres e ele tornou-se um ídolo dos judeus de Samaria e dos padres circunvizinhos.
Mas os adoradores do maravilhoso são geralmente ávidos de emoções novas ...O apóstolo São Felipe foi pregar o Evangelho em Samaria e angariou uma nova corrente de entusiasmo. Simão perdeu todo o seu prestígio e sentindo-se abatido por sua moléstia, que tomava por uma impotência. Julgando-se superado por magos mais sábios que ele, decidiu unir-se aos apóstolos para estudar e apoderar-se de seus segredos. Simão, certamente, não era iniciado em Alta Magia; se fosse, saberia que para dispor das forças secretas da Natureza, de modo a dirigí-las sem ser quebrado por elas, é preciso ser um sábio e um santo.
Privado de suas vertigens, Simão estava infeliz. Ninguém se conforma em voltar a ser um simples mortal depois de ter se sentido como um Deus. Para recuperar os poderes perdidos, o feiticeiro submeteu-se a todos os rigores da austeridade apostólica: fez vigílias, orou, jejuou, mas os prodígios não voltaram. Finalmente, ofereceu dinheiro a São Pedro. O chefe dos apóstolos o repeliu com indignação. O mago deixou depressa esta sociedade de homens tão desinteressados e com o dinheiro que São Pedro recusou, comprou uma escrava chamada Helena.
Ele se apaixonou intensamente pela mulher e a paixão, enfraquecendo-o e exaltando-o, fez voltar suas catalepsias e seus fenômenos mórbidos. Foi assim que Simão forjou, sobre si mesmo, uma mitologia cheia de reminiscências mágicas misturada a devaneios eróticos. Põs-se a viajar, como os apóstolos, levando consigo sua Helena. A doutrina do novo "iluminado" pregava que a primeira manifestação de Deus fora um esplendor perfeito, reflexo do Criador. Este sol de almas era ele, Simão, e reproduzindo a criação de seu Pai, seu reflexo era Helena, que ele chamava Selene, para significar Lua.
...Simão fazia-se chamar "santo"; tornou-se um "personagem" e voltou à Roma, onde o imperador, curioso de todos os espetáculos extraordinários, estava disposto a acolhê-lo. Este imperador era Nero. ...Segundo as lendas, foi para preservar os judeus da dourina de Simão que São Pedro dirigiu-se para Roma. Nero soube depressa ...que um novo taumaturgo israelita chegava para fazer guerra ao feiticeiro e resolveu confrontar os dois, porque deleitava-lhe a idéia do embate.
— Que a paz esteja convosco! diz entrando o príncipe dos apóstolos.
— Nada temos a fazer com tua paz — responde Simão — é pela guerra que a verdade se descobre. A paz entre adversários é o triunfo de um e a derrota do outro.
Pedro replicou
— Por quê recusas a paz? Foram os vícios dos homens que criaram a guerra; a paz acompanha sempre a virtude.
— A virtude é a força e a destreza — diz Simão. Eu afronto o fogo, elevo-me nos ares, ressucito as plantas, mudo a pedra em pão; e tu, que fazes?
— Oro por ti — responde São Pedro — para que não pereças vítima de teus prestígios.
— Guarda tuas preces; elas não subirão no mesmo instante que eu aos céus.
Neste momento, o Mágico precipita-se por uma janela, elevando-se nos ares. São Pedro estava de joelhos e orava; de súbito, Simão grita e cai; levantaram-no ainda vivo, com as coxas quebradas; mas não se recuperou e morreu em decorrrência da gravidade do acidente. Nero mandou encarcerar São Pedro, que lhe parecia ser um mago menos divertido que Simão.
Herança de Simão: a seita dos menandrinos
A seita de Simão não se extinguiu com ele. Seu sucessor foi um de seus discípulos, chamado Menandro de onde derivou o nome destes sectários: são os menandrianos. Menandro contentava-se com o papel de profeta; quando batizava seus prosélitos um fogo visível descia sobre a água; ele lhes prometia a imortalidade da alma e do corpo por meio deste banho mágico. Ainda no tempo de São Justino, havia meandrinos que se julgavam imortais. A morte de uns não desenganava aos outros, porque o defunto era imediatamente excomungado e considerado como falso irmão. Os menandrinos consideravam a morte como verdadeira apostasia. ...Os que sabem até onde pode chegar a loucura humana, não se admirarão se lhes informarmos que neste mesmo ano, de 1858, existiam ainda na América e na França da seita dos menandrinos.

Capítulo III - Do Diabo
O Cristianismo, que compreende Deus como o amor mais puro e o mais absoluto, define claramente o espírito oposto a Deus. É o espírito ...de ódio, é Satã. Mas este esírito não é um personagem que se deva compreender como uma espécie de "deus da maldade". [Satã] ...é uma perversidade [uma imperfeição] comum a todas as inteligências desencaminhadas. "Eu me chamo Legião — diz ele no Evangelho — porque somos uma multidão".
A personificação e quase divinzação de Satã é um erro que se liga ao falso Zoroastro [doutrinas corrompidas do Zoroastrismo] ...aos magos materialistas da Pérsia. Eles transformaram em deuses dois pólos do mundo intelectual. ...A este respeito [sobre o mal], expomos aqui qual é o ensino secreto dos iniciados das ciências ocultas.
...O grande agente mágico, chamado justamente Lúcifer, porque é veículo da luz e receptáculo de todas as formas, é uma força intermediária onipresente em toda a Criação ...e serve tanto para criar quanto para destruir [ou, serve para FORMAR e para TRANSFORMAR]. ...A queda de Adão [alegoria] foi uma embriaguês erótica que tornou sua geração [existência] escrava desta luz fatal. ...Toda paxão amorosa que invade os sentidos é um turbilhão dessa luz que nos arrasta parao golfo da morte. ...A loucura, as alucinações, as visões, os êxtases, são uma exaltação perigosa dessa luz interior.
Essa luz é da natureza do fogo, cujo emprego inteligente aquece e vivifica, cujo excesso, ao contrário, queima, dissolve e aniquila. Essa luz, enquanto devoradora ...seria o fogo do inferno, a serpente da lenda. ...As ações do mal dirigidas pela vertigem da luz astral, as miragens enganadoras de prazer, de riqueza e de glória ...seriam as pompas do inferno. Tudo o que entrega nossa alma à fatalidade das vertigens é, de fato, infernal ...[desordem], ou seja, o oposto do que visto como céu, reino da ordem.
Os possessos do Evangelho fugiam diante de Jesus Cristo, os oráculos calavam-se diante dos apóstolos e os doentes alucinados manifestavam repugnância pelos sábios e iniciados. A cessação dos oráculos e das possessões era uma prova do triunfo da liberdade humana sobre a fatalidade. Quando as moléstias astrais se mostram de novo, é um sinal funesto que anuncia o enfraquecimento das almas. O célebre criminalista Torreblanca, que estudou a fundo as questões da magia diabólica [e sua relação com o crime], descreveu precisamente todos os fenômenos de perturbação astral. No sumário do capítulo XV da Magia Operatória [...Torreblanca, atribuindo doenças à ação do demônio permite entender que "o demônio", é uma perturbação da inteligência que dá causa a ações ditas demoníacas.] Eis parte do sumário do livro:
1º O esforço contínuo do demônio mira levar-nos ao erro.
2º O demônio engana os sentidos perturbando a imaginação...
5º e 6º Quando o equilíbrio da imaginação e da razão é destruído por uma causa mórbida, sonha-se acordado e pode-se ver com aparência real o que não existe...
10º As visões saem de nós e são reflexos de nossa própria imagem.
11º Os antigos conheciam duas moléstias que eles chamavam, a uma frenesi e à outra coribantismo. A primeira fazendo ver formas imaginárias; a segunda fazendo ouvir vozes e sons que não existem...
Os enfermos de perversão astral são inclinados ao mal e entristecem-se com a alegria dos outros. É também a perversão astral ...que produz os abusos sexuais. Cada um dos vícios humanos e terrenos personificou-se em um demônio que é uma imagem negativa, desfigurada da divindade. São ídolos da morte:
Moloch é a fatalidade que devora os filhos.
Satã e Nisroch são "deuses" do ódio, da fatalidade e do desespero.
Astartéia, Lilith, Naema e Astaroth são os ídolos da devassidão e do aborto.
Adramalaque é o "deus" do assassínio.
Belial produz a revolta e a anarquia.
Para os iniciados, [o diabo] não é uma pessoa; é uma força [criadora que seres animados e inteligentes usam livremente, para bem e para o mal] ...[Em sua] ...forma mitológica e cornuda, [é o ] deus Pã; daí veio o bode do sabá [e as figurações desta força que acabam se impondo às mentes mais simplórias que, não entendendo as idéias abstratas sobre o mal, acolhem facilmente representações concretas dotadas de forma e personalidade].
Capítulo IV - Os Últimos Pagãos
Este é mais um dos capítulos onde Eliphas Levi promete e não cumpre. O autor fornece um quase nada em termos de dados biográficos das personagens sobre as quais pretende escrever: Apolônio de Tiana (ou Thyana), Juliano, o Imperador, Jâmblico e Máximo de Tiro. No sumário, também consta o subtítulo "Começo das sociedades secretas e práticas proibidas", tópico praticamente inexistente no corpo do texto. Os trechos escolhidos seguem abaixo:

Apolônio de Thyana
Diante da ação civilizadora do Cristianismo nascente, as paixões amigas da desordem entraram em ação. O politeísmo expirante [moribundo] pediu forças à magia dos antigos santuários; aos mistérios do Evangelho opuseram-se os de Eleusis. Apolônio de Tiana foi posto em paralelo com o Salvador do mundo [Jesus]; Filóstrato encarregou-se de fazer uma lenda a esse deus novo. ...A história de Apolônio por Filóstrato, absurda se quisermos tomá-la ao pé da letra, é muito curiosa ...É uma espécie de Evangelho pagão oposto aos Evangelhos do Cristianismo. (p 163)
Toda a vida de Apolônio, escrita por Filóstrato segundo Damis, o Assírio [principal discípuo de Apolônio] é um tecido de apólogos e parábolas. ...Apesar de sua grande ciência e de suas brilhantes virtudes Apolônio não era o continuador da escola hierárquica dos magos. Sua iniciação vinha das Índias e ele, para inspirar-se, entregava-se às práticas enervantes dos Brâmanes; ele pregava abertamente a revolta e o regicídio: era um grande caráter desviado. (p 166)
[Ao invés de falar de Apolônio do ponto de vista histórico biográfico, Levi se detém em descrever determinados conteúdos da biografia escrita por Filóstrato, Vida de Apolônio a fim de demonstrar que Apolônio era um Iniciado. Fervoroso defensor do cristianismo católico romano, Eliphas Levi preocupa-se em demonstrar a inferioridade de Apolônio comparado a Jesus. ]
Imperador Juliano
A figura do imperador Juliano nos aparece mais poética ...que a de Apolônio. Juliano ...queria transfundir a seita nova do Cristianismo no corpo do helenismo envelhecido ...Para contrabalançar a potência realizadora do dogma cristão, tomou também a Magia Negra em seu auxílio e entregou-se ...a tenebrosas evocações. Seus deuses, cuja beleza e juventude queria ressucitar, apareceram-lhe velhos e decrépitos, inquietos da vida e da luz e prestes a fugir diante do sinal da cruz!
Depois da morte deste imperador, a idolatria e Magia foram envolvidas numa mesma reprovação universal. Foi então que nasceram estas sociedades secretas de adeptos às quais se ligaram mais tarde os gnósticos e os maniqueus; sociedades depositárias de uma tradição misturada de verdades e erros.
Como se vê, o autor trata da vida destes "Ultimos Pagãos" de forma superficial e literária. Informações sobre Jâmblico e Máximo de Éfeso simplesmente não constam no capítulo e estes nomes são mencionados de passagem em um parágrafo exíguo sobre o imperador Juliano. O leitor fica curioso; fica sedento de dados mais precisos. Neste estudo, buscaremos resolver este problema fornecendo links que conduzem a páginas que contêm biografias bem mais completas de Apolônio. Uma delas, hospedada no site Sobrenatural, foi extraída da edição on-line de um dos poucos escritos atribuídos a Apolônio de Thyana que chegou aos nossoa dias: o Nuctameron, livro que também pode ser obtido na internet.
I - Apolônio de Thyana IN www.sobrenatural.org
II - Apolônio de Thyana IN Orion.med
Capítulo V - Das Lendas

São Cipriano
Antióquia - Justina era uma jovem e bela virgem pagã, filha de um sacerdote dos ídolos. Sua janela dava para o pátio vizinho da igreja dos cristãos. Todos os dias ela ouvia a voz pura de um diácono ler bem alto os santos Evangelhos. Esta palavra desconhecida tocou e revolveu-lhe o coração. Uma tarde, sua mãe, vendo-a pensativa, insisitiu para que lhe confiasse as preocupações. Justina lançou-se aos seus pés dizendo-lhe: "Mãe, abençoai-me ou perdoai-me, eu sou cristã".
A mãe chorou abraçando sua filha e foi procurar o esposo a quem confiou o que acabava de saber. Eles adormeceram e tiveram o mesmo sonho. Uma luz divina descia sobre eles e uma voz doce os chamava dizendo-lhes: "Vinde a mim, vós que viveis aflitos e eu vos consolarei; vinde, os amados de meu Pai e eu vos darei o reino que vos está preparado desde o começo do mundo."
Ao amanhecer, o pai e a mãe abençoaram sua filha. Os três fizeram-se inscrever entre os catecúmenos e depois das provas de costume foram admitidos ao santo batismo. Justina voltava branca e radiosa da igreja, entre sua mãe e seu velho pai, quando por ela passaram dois homens sombrios embrulhados em seus mantos: era o mago Cipriano e seu discípulo, Acládio. Os homens pararam deslumbrados pela visão da moça. Justina não os notou e entrou em casa com sua família.
No laboratório de Cipriano, uma vítima degolada palpita perto de um estrado fumegante. Em frente ao mago, apareceu então o gênio das trevas:
— Eis-me aqui; por que me chamas-te? Fala! Que queres?
— Amo uma virgem.
— Seduze-a.
— Ela é cristã.
— Denuncia-a.
— Eu quero possuí-la e não perdê-la; podes fazer alguma coisa em meu favor?
— Eu seduzi Eva, que era inocente e que conversava todos os dias familiarmente com Deus. Se tua virgem é cristã, fica sabendo que fui eu que fiz crucificar Jesus Cristo.
— Logo, tu me entregarás a jovem?
— Toma este ungüento mágico; besuntarás com ele o limiar da porta dos aposentos da moça e do resto eu me encarregarei.
Justina dorme em seu quartinho casto e severo. Cipriano posta-se à porta murmurando palavras sacrílegas e procedendo a ritos horríveis. O demônio coloca-se à cabeceira da rapariga e sopra-lhe sonhos voluptosos cheios da imagem de Cipriano que ela crê encontrar ainda ao sair da igreja; mas desta vez ela o contempla, escuta o que ele diz e perturba-se. Ela se agita e desperta. Faz o sinal da cruz e o demônio desaparece. O sedutor que faz sentinela à porta aguarda-a inutilmente toda a noite.
No dia seguinte ele recomeça suas evocações e faz amargas censuras ao cúmplice infernal. Este, confessa sua impotência. Cipriano o expulsa e faz aparecer um demônio de ordem inferior. O recém convocado transforma-se alternadamente em formoso mancebo e moça para tentar Justina por carícias e conselhos. A virgem vai sucumbir mas seu anjo da guarda a assiste; ela faz o sinal da cruz e expulsa o mau espírito. Cipriano invoca, então, o rei dos infernos e vem Satã em pessoa. Ele acomete Justina com todas as dores de Jó e espalha uma peste terrível em Antióquia, mandando os oráculos dizerem que a peste cessará quando Justina acalmar Vênus e o amor ultrajados. Justina ora publicamente pelo povo e a peste cessa.
Vencido mais uma vez, Cipriano obriga Satã a confessar a onipotência do sinal da cruz e o afronta, marcando-se com este sinal. Ele abjura a magia, torna-se cristão, chega a bispo e reencontra Justina num mosteiro de virgens. Eles se amam, então, com o puro e durável amor da celeste caridade; a perseguição, porém, os atinge: são presos juntos e mortos no mesmo dia, consumando no seio de Deus um casamento místico e eterno. (p 167-169)
Lenda de Apuleio
Eis o assunto do livro de Apuleio: ele é um viajante de passagem pela Tessália, país dos encantamentos. Ali recebe a hospitalidade de um homem cuja mulher é feiticeira. Seduz a criada desta mulher pretendendo, por este meio, obter segredos de magia. A criada promete entregar ao amante uma poção por meio da qual a feiticeira se transforma em pássaro porém engana-se com as caixas e Apuleio se vê mudado em Asno.
A amante desastrada o consola dizendo-lhe que para retomar sua forma humana basta comer rosas, que é a flor da iniciação. Mas onde achar rosas à noite? É preciso esperar o dia seguinte. A criada conduz o asno à estrebaria. Aparecem ladrões que roubam o asno. Torna-se difícil aproximar-se de rosas, que não são feitas para burros; sempre que tenta, os jardineiros expulsam-no a pauladas. Apuleio vai perdendo as esperanças mas, certa ocasião, tendo adormecido, aparece-lhe em sonho a deusa Ísis e lhe promete que seu sacerdote, prevenido por uma revelação, lhe dará rosas durante as solenidades de sua festa, que está próxima.
Chega o dia da festa: homens mascarados seguem à frente; ...depois vêm as mulheres espalhando flores; por fim, as imagens dos deuses, em número de três, seguidas pelo grande hierofante, que conduz, não uma imagem, mas o símbolo de Ísis, uma bola de ouro com o caduceu em cima. Lúcio Apuleio vê na mão do sacerdote uma coroa de rosas. Aproxima-se e não é repelido. Come as rosas e recupera a natureza humana.
Capítulo VI - Pinturas Cabalísticas e Emblemas Sagrados
Sobre a Igreja Primitiva
A Igreja primitiva, obedecendo ao preceito formal do Salvador, não entregava seus mais santos mistérios às profanações da multidão. Ao batismo e à comunhão só se era recebido por meio de iniciações progressivas. ...As imagens eram então menos numerosas e, sobretudo, menos explícitas. Abstinham-se de reproduzir a figura do Salvador; as pinturas das catacumbas são, em sua maior parte, emblemas cabalísticos.
Gnósticos
O nome "gnóstico" nem sempre foi um nome proscrito na Igreja. Os padres ...empregaram muitas vezes esta denominação para designar o cristão perfeito ...Os falsos gnósticos foram todos rebeldes à ordem hierárquica ...quiseram nivelar a ciência, vulgarizando-a ...concedendo licença à mística das paixões sensuais em detrimento da sobriedade cristã e da obediência às leis ...Produzir êxtases por meios físicos e substituir a santidade pelo sonambulismo, tal foi sempre a tendência das seitas caínicas continuadoras da Magia Negra da Índia. A Igreja devia reprová-las com energia...
Esperando escapar à hierarquia pelo milagre comum ...os gnósticos ...eram operadores de prodígios, substituindo o culto regular pelos ritos impuros da Magia Negra, fazendo aparecer sangue em vez do vinho eucarístico...
A intrusão da mulher no sacerdócio foi sempre o sonho dos falsos gnósticos porque nivelando assim os sexos, eles introduziam a anarquia na família e punham, para a sociedade, uma pedra de tropeço. O sacerdócio real da mulher é a maternidade e o culto desta religião do lar é o pudor.
Manés - Maniqueísmo
Depois do panteísmo polimorfo dos gnósticos, veio o dualismo de Manés [que] ...formulou em dogma religioso a falsa iniciação dos pseudo-magos da Pérsia. O mal, personificado, tornou-se rival de Deus. ...[Conceberam] um rei da Luz e um rei das Trevas...[e foi netsa época que começou a institucionalização desta crença] ...esta idéia funesta da soberania e ubiqüidade de Satã.
INFORMAÇÃO COMPLEMENTAR:
O maniqueísmo, tal como o gnosticismo e outras correntes doutrinárias religiosas, está relacionado entre os chamados "movimentos heréticos" dos primeiros séculos da Era Cristã. O encontro do Cristianismo com a filosofia neoplatônica em várias "heresias", ou seitas de perdição, conforme São Pedro e São Paulo; entre elas, a gnose é mais conhecida. Entre os séculos III e IV surgiu o Maniqueísmo, um sistema de pensamento elaborado pelo neoplatonico Mani (ou Manés). Suas influências eram o budismo e o Zoroastrismo. Pregava a existência da dualidade, dois princípios, o bem e o mal. A matéria era essencialmente má. Santo Agostinho chegou a pertencer a esta seita.
Outras heresias proliferaram. O Arianismo, criado por Ário, bispo de Alexandria, que pregava o Cristo criatura, eliminando assim o mistério da divindade coexistente com a natureza humana. O Nestorianismo, heresia de Nestório, negava a Maria a condição de Mãe de Deus. O monofisismo, de Eutiques, negava a natureza humana de Cristo. O pelagianismo, negava o pecado original.
Fonte: ENCICLOPÉDIA BARSA, vol VII - p 186.
São Paulo: Melhoramentos | Britânica Editores, 1966.
Capítulo VII - Filósofos da Escola de Alexandria
Amônio Sacas, Plotino, Porfírio, Proclo, são grandes nomes paraa ciência e para a virtude. Sua teologia e moral eram elevadas, seus costumes austeros. Mas a maior e a mais tocante figura desta época, a mais brilhante estrela desta plêiade, foi Hipátia, filha de Teon. ...Na escola de Hipátia formou-se Sinésio de Cirene, que foi mais tarde bispo de Ptolemaida, um dos mais sábios filósofos e o maior poeta do Cristianismo dos primeiros séculos.
Sinésio de Cirene escreveu:
O povo escarnecerá sempre das coisas difíceis de compreender, ele tem necessidade de imposturas.
Um espírito amigo da sabedoria e que contempla de perto a verdade é forçado a mascará-la para que seja aceita pelas multidões. ...Se o olho recebesse de repente uma luz muito abundante, ele seria deslumbrado ...No meu entender, as ficções são necessárias ao povo e a verdade se torna funesta aos que não têm força para contemplá-la em todo o seu fulgor. ...A verdade deve ser mantida em segredo e as multidões têm necessidade de um ensino proporcional à sua imperfeita razão.
O livro mais notável de Sinésio é um Tratado dos Sonhos. ...No pensar de Sinésio, o estado de sonho prova a especialidade e imaterialidade da alma, ...que cria campinas, palácios ou cavernas sombrias segundo suas afeições e seus desejos. ...Alguns críticos atribuem também a Sinésio livros notáveis que trazem o nome de Saint Dinis, o Areopagita ...[Entre tais volumes destaca-se] ...O tratado dos nomes divinos ...Deus, diz o autor, é o princípio infinito e indefinível perfeitamente uno e indivisível mas nós lhe damos nomes que expressam nossas aspirações para esta perfeição divina; o conjunto desses nomes, suas relações com os números, compõem o que há de mais elevado no pensamento humano e a teologia é menos a ciência de Deus que a de nossas aspirações mais sublimes.
FIM DOS VOLUMES II e III
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Retorno: Índice de Volumes
Bibliografia do Pesquisador
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