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estudo

História da Magia

de Eliphas Levi

ÍNDICE

LIVRO II — FORMA E REALIZAÇÃO DO DOGMA
Capítulo I: Simbolismo Primitivo da História

Capítulo II — Misticismo

Capítulo III — Iniciação e Provas

Capítulo IV — Magia do Culto Público: Exoterismo

Capítulo V — Mistérios da Virgindade: Roma

Capítulo VI — Superstições

Capítulo VII — Monumentos Mágicos

 

LIVRO III - SÍNTESE E REALIZAÇÃO DIVINA
DO MAGISMO PELA REVELAÇÃO CRISTÃ
Capítulo I: Cristo Acusado de Magia Pelos Judeus

Capítulo II — Verdade da Magia Pelo Cristianismo
                    — SIMÃO, o mago

Capítulo III — Do Diabo

Capítulo IV — Os Últimos Pagãos

LINKS SUPLEMENTARES:

I - Apolônio de Thyana IN www.sobrenatural.org
II - Apolônio de Thyana IN Orion.med

Capítulo V — Das Lendas

Capítulo VI — Pinturas Cabalísticas & Emblemas Sagrados

Capítulo VII — Filósofos da Escola de Alexandria

 

 

LIVRO II
FORMAÇÃO E REALIZAÇÃO DO DOGMA


Capítulo I - Simbolismo Primitivo da História

Este é outro exemplo de um texto de Levi que deixa muitas lacunas no que se refere à ciência da História, propriamente dita. O "Simbolismo Primitivo", tema central do capítulo, restringe-se ao conjunto de signos da alegoria bíblica judaico-cristã que compõem o relato da queda do homem, de uma condição de ser paradisíaca para uma condição infernal. O autor busca decifrar o episódio que fala de Adão expulso do Éden. Abaixo, alguns comentários do ocultista:



Expulsão do Paraíso

O homem abdica o domínio da inteligência cedendo às solicitações da parte sensitiva; ele profana o fruto da ciência que deve nutrir a alma e usa a ciência para satisfazer a desejos injustos e puramente materiais [terrenos]. Então, o homem perde o sentimento da harmonia e da verdade. Ele se reveste de uma pele animal, porque a forma física conforma-se, cedo ou tarde, com as disposições morais. [Assim, "Adão"] é expulso do círculo banhado pelos quatro rios da vida e um querubim, armado com uma espada flamejante, o impede de entrar no domínio da unidade. O querubim é o anjo é representativo da terra e aparece nos antigos mistérios na figura de um boi, um anjo com cabeça de touro.


Torre de Babel

A primeira conseqüência do pecado de Eva é a morte de Abel. Eva separou o amor da inteligência e com isso a inteligência tornou-se uma força cega, entregue às ambições terrenas. [Enquanto isso...] Os filhos de Caim perpetuaram o crime de seu pai. Puseram no mundo filhas fatalmente belas, filhas sem amor, nascidas para a danação dos anjos ...Depois do Dilúvio e da prevaricação de Cam [filho de Noé] os homens intentam um projeto insensato: construir um palácio universal. É um gigantesco ensaio de socialismo igualitário ...uma cidadela elevada, protegida contra inundações [onde] ...onde povo divinizado estivesse acima das tempestades ...mas os degraus hirárquicos do espírito não podem ser ignorados e não se constroem com argamassa. A anarquia protestou, prevaleceu e os homens não se entenderam mais; uma lição mal compreendida até hoje [o autor escreve no sec. XIX] por aqueles que, em nossos dias, sonham com uma outra Babel. ...A dispersão dos homens foi o primeiro efeito da maldição lançada contra os profanadores filhos de Cam.


Ética, moral e suas relações com Magia Negra

A castidade conservadora da família é o caráter distintivo das iniciações hieráticas; a profanação e a revolta são sempre obcenas e tendem à promiscuidade infanticida. Macular os mistérios do nascimento, o atentado contra crianças eram o fundo dos cultos da antiga Palestina, abandonada aos ritos da magia negra. Ali reinava o deus negro da Índia, o monstruoso Rutra, de formas principescas, que no Oriente Médio foi chamado Belfegor.

Os talmmudistas e o judeu platônico Fílon ...contam coisas vergonhosas sobre o culto a este ídolo. Era, dizem eles, uma figura barbuda, de boca aberta, tendo por língua um gigantesco falo; todos se depiam sem pudor diante deste semblante. ...Dançava-se ao ruído das trombetas e dos tambores para não serem ouvidos os gritos das vítimas. As mães dirigiam as danças. O incesto, a sodomia, a bestialidade eram usos, parte dos ritos sagrados adotados entre estes povos infames. ...O sabá dos feiticeiros da Idade Média não foram senão uma repetição [herança] das festas de Belfegor. Os adoradores dos deuses negros, os apóstolos da promiscuidade, os teóricos do impudor público, os inimigos da família e da hierarquia, os anarquistas da religião e da política são inimigos de Deus e da humanidade; não separá-los do mundo é consentir no envenenamento do mundo. Assim raciocinavam os Inquisidores.

 

 

Capítulo II - Misticismo


A legitimidade de direito divino pertence de tal forma ao sacerdócio que sem ela o verdadeiro sacerdócio não existe. A iniciação e a consagração são uma verdadeira hereditariedade. O santuário é inviolável para os profanos. ...As luzes da revelação divina se distribuem com uma suprema razão, porque descem com ordem e harmonia. Deus não esclarece o mundo com meteoros e raios, mas em compensação faz gravitar universos cada um ao redordo seu sol. ...Muitos homens, que não podem forçar a harmonia revelada a concordar com seus vícios, proclamam a si mesmos como reformadores da moral. ...Assim começam os sectários, agentes da anarquia religiosa que não desejamos entregar as chamas, mas que é preciso enclausurar como loucos furiosos. Assim se formaram as escolas místicas profanadoras da ciência.

Vimos por que processos os faquires da Índia chegavam ...à luz incriada. O Egito teve também seus feiticeiros ...e a Tessália, na Grécia, esteve cheia de conjurações e malefícios. Por-se em relação com demônios e deuses é suprimir o sacerdócio; mas a Alta Magia é a arte sacerdotal primitiva. Ela reprova tudo o que se faz fora da hierarquia legítima e aprova não o suplício, mas a condenação dossectários e feiticeiros.

Sendo a anarquia o ponto de partida e o caráter distintivo do misticismo dissidente, a concórdia religiosa é impossível entre os sectários; mas eles se entendem admiravelmente num ponto: o ódio a autoridade hierárquica e legítima. ...É sempre o crime de Cam; o desprezo ao princípio da família, o ultraje inflingido ao pai... Os místicos anarquistas ... embriagam-se de vertigens e não tardam a cair no abismo da loucura. ...Os loucos tomam horror aos médicos e os místicos alucinados detestam os sábios.



Rituais de sangue

A Igreja, admitindo a possibilidade e a existência dos milagres diabólicos, reconhece a existência de uma força natural que, em mãos humanas, pode servir tanto ao bem quanto ao mal. ...Os falsos [malígnos] milagres ocasionados pelas consgestões astrais têm sempre uma tendência anárquica e imoral, porque a desordem chama a desordem. Por isso os deuses e os gênios dos sectários são ávidos de sangue e prometem sua proteção ao preço do assassínio. Os idólatras da Síria e da Judéia faziam oráculos com cabeças de crianças.

...Dissemos que o sangue atrai as larvas. Nos sacrifícios infernais, os antigos cavavam um fosso e enchiam de sangue tépido e fumegante da vítimas, humanas ou não [caso do judeus, que sacrificavam animais; ou como os pré-colombianos, mais cruéis, que faziam sacrifícios humanos. Valas que conduziam o sangue do alto dos templos às bacias de pedra na base da pirâmides, de fato, podem ser vistas nas ruínas]. Desses poços de sangue os sacerdotes profanos viam rastejar, subir, descer, acorrer das profundezas da terra, de todas as profundidades da noite, sombras débeis e pálidas. Para tudo poder é preciso tudo ousar, tal era o princípio dos encantamentos e dos horrores dos magos negros.

Os falsos mágicos são reconhecidos pela sua relação com o crime ...É sempre o mesmo amor às trevas, são sempre as mesmas profanações, as mesmas prescrições sangrentas. A magia da morte é o culto da morte. O feiticeiro abandona-se à fatalidade, ele abjura sua razão, renuncia à esperança de imortalidade e imola crianças. Ele renuncia ao casamento honesto e faz voto de devassidão estéril. [Mas] ....Quando o cérebro atrai violentamente uma série de imagens análogas a uma paixão ...a luz extraviada se coagula ...todos os excessos da vida ...podem exaltar e produzir estagnações da luz astral. A ambição excessiva, pretensões orgulhosas à saúde, a continência hipócrita povoada de desejos, paixões vergonhosas, remorsos, tudo isso conduz ao enfraquecimento da razão, ao êxtase mórbido, à histeria, às visões, à loucura.

 

 

Capítulo III - Iniciação e Provas

Os que os adeptos chamam grande obra não é somente a transmutação dos metais, é também e sobretudo a medicina universal, isto é, o remédio a todos males, entre os quais, a morte.

O grande mistério da vida e de suas provas acha-se representado na esfera celeste e no ciclo do ano. As quatro formas da Esfinge correspondem aos quatro elementos e às quatro estações. ...Todo homem que pensa é um Édipo que tem de adivinhar o enigma da esfinge ou morrer. Todo iniciado deve ser um Hércules a realizar o ciclo de um grande ano de trabalhos para merecer, pelos sacrifícios do coração e da vida, os triunfos da apoteose. A prova, tal é a grande palavra da vida; a vida é uma serpente que se procria e se devora sem cessar; é preciso fugir aos seus abraços e por-lhe o pé sobre a cabeça.

As grandes provas de Mênfis e Eleusis tinham por alvo formar reis e sacerdotes. Para ser admitido nestas provas, era preciso entregar-se de corpo e alma ao sacerdócio e fazer abandono da própria vida. Descia-se então a subterrâneos escuríssimos onde se deveria atravessar alternativamente fogueiras acesas, correntes de água profunda e rápida, pontes móveis lançadas sobre abismos e isso sem deixar extinguir-se e sem perder uma lâmpada que se levava à mão.

Aquele que vacilasse ou tivesse medo não deveria jamais rever a luz; o que transpusesse com intrepidez todos os obstáculos era recebido entre os mistos, isto é, era um iniciado nos pequenos mistérios. Mas ainda faltava provar sua fidelidade e seu silêncio e só no fim de muitos anos ele se tornava epopta, título que corresponde ao de adepto. ...Pitágoras exigia o silêncio e a abstinência durante cinco anos; Platão não admitia em sua escola senão geômetras e músicos e reservava uma parte de seus ensino para os iniciados e sua filosofia, tinha seus mistérios.


Necromancia e Goétia

As experiências da Teurgia e da Necromancia são sempre funestas aos que se abndonam a elas. Quando se pôs uma vez o pé no limiar do outro mundo, é preciso morrer e quase sempre de um modo estranho e terrível. A vertigem começa, a catalepsia e a loucura concluem. É certo que em presença de certas pessoas e depois de uma série de atos embriagadores, faz-se uma perturbação na atmosfera, as madeiras estalam, portas tremem e gemem. Sinais extravagantes e às vezes sanguinolentos parecem imprimir-se sobre o pergaminho virgem ou sobre a roupa branca. Estes sinais são sempre os mesmos e os magistas os classificam sob o nome de escrituras diabólicas



Inferno Grego

Em sua descrição alegórica dos infernos os hierofantes gregos ocultaram grandes segredos da magia. Quatro rios se encontram ali, como no paraíso terrestre ...Um rio de dores e gemidos, o Cocito; um rio do esquecimento, o rio Lete; um rio de água rápida que a tudo arrasta, o Aqueronte; e um rio de fogo, o Flegetonte. Os dois últimos se cruzam: o Flegetonte aquece e faz fumegar as águas frias e negras do Aqueronte e o Aqueronte cobre de espessos vapores as chamas líquidas do Flegetonte. Destes vapores, saem aos milhares, larvas e lêmures, imagens vãs dos corpos que viveram e dos que não vivem mais e todos, tenham bebido ou não do rio das dores, todos aspiram ao esquecimento do Lete, cuja água soporífica lhes restituirá a juventude e a paz.


Mistérios da Morte

Não é além da tumba, mas na vida mesma que se deve procurar os mistérios da morte. A salvação e a reprovação começam aqui e o mundo terrestre tem também seu céu e seu inferno. Sempre aqui a virtude é recompensada, sempre, aqui, o vício é punido; e o que nos faz crer, as vezes, na impunidade dos maus, é que as riquezas, estes instrumentos do bem e do mal, parecem agraciar a vida dos maus por mero jogo do acaso. Mas infelizes os homens injustos quando possuem a chave do ouro, ela não lhes abre senão a porta do túmulo e do inferno. Todos os verdadeiros iniciados reconhecem a imensa utilidade do trabalho e da dor. ...Aprender a sofrer, aprender a morrer, é a ginástica da Eternidade, é o noviciado eterno.

No Fédon, de Platão, Sócrates discorre sobre os destinos da alma: os espíritos depurados pela provação libertam-se das leis da gravidade e, sobretudo, da atmosfera das lágrimas; os outros rastejam nas trevas e são estes que aparecem aos homens fracos e criminosos. Os que se libertaram das misérias da vida material não voltam mais a compartilhar dessa existência de crimes e erros.

Os que perturbam o repouso do túmulo sempre foram considerados ímpios. Chamar os mortos à Terra é condená-los a morrer duas vezes ...Depois da morte, a alma pertence a Deus e o corpo à mãe comum, que é a terra. Quando um homem atrai, por uma cadeia de conjurações, as almas que nadam nas trevas, eles vêm à luz como filhos do conjurador; filhos póstumos que se alimentam do sangue e da alma de quem os evoca. Os necromantes são produtores de vampiros; não os lastimemos se morrerem roídos pelos mortos.

 

 

Capítulo IV - Magia do Culto Público ou Exotérico

As idéias produzem as formas e as formas, por sua vez, refletem e reproduzem as idéias. ...Estas duas grandes leis da natureza, observadas pelos antigos magos, fizeram-lhes compreender a necessidade de um culto público [exotérico], único, obrigatório, hierárquico e simbólico ...A humanidade nunca teve senão uma religião e um culto. Essa religião é uma luz universal; tem suas miragens incertas, seus reflexos enganadores e suas sombras, mas depois das noites do erro, nós vemos a luz da verdadeira religião ressurgir única e pura como o brilho do Sol. As magnificiências do culto são a vida da religião e se o Cristo quer ministros pobres, sua divindade soberana não quer altares pobres. Os protestantes, com suas igrejas frias e nuas, não compreenderam que o culto é um ensinamento e que na imaginação da multidão não se deve criar um deus mesquinho e miserável.

A ortodoxia é o caráter absoluto da Magia. ...É pela inteligência [entendimento] da hierarquia e a prática da obediência que se obtém a iniciação e um verdadeiro iniciado não será nunca um sectário [dissidente]. ...Sendo a iniciação a conseqüência necessária da hierarquia, princípio fundamental das realizações mágicas, os profanos, depois de terem tentado inutilmente forçar as portas do santuário, tomaram o partido de indispor altar contra altar. ...Histórias horríveis correram sobre os magos; feiticeiros e estriges lançaram sobre eles a responsabilidade de seus crimes ... e quanto maior a calúnia, tanto maior impressão faz sobre os tolos.

 

 

Capítulo V - Mistérios da Virgindade: Roma

A tradição mágica de todas as idades concede à virgindade alguma coisa de sobrenatural e divino. As inspirações proféticas procuram as virgens. A inocência e virgindade sempre foram as vítimas preferidas dos praticantes da Goetia, que sacrifica crianças em cujo sangue reconhece uma virtude sagrada [e que lhes falta]. Lutar contra os atrativos da geração é exercitar-se em vencer a morte e a suprema castidade era a mais gloriosa coroa proposta aos hierofantes. Espalhar a vida nos abraços humanos é lançar raízes no túmulo.


Vestais

Os romanos, herdaram a cultura dos gregos porém, com diferenças notáveis a partir de um fato em especial que caracteriza a iniciação dada aos romanos, a iniciação de Numa. Esta diferença é a importância conferida à mulher. Numa pedirá sua inspiração à sábia e discreta Egéria, a deusa do mistério e da solidão. ...O que deve assegurar o futuro de Roma é o culto da pátria e da família. Numa tratou de honrar a Mãe dos deuses elevando um templo esférico cuja cúpula abriga um fogo que não deve nunca apagar-se. Este fogo é mantido por quatro virgens que se chamam Vestais.

[A mulher romana assume um novo papel no quadro socio-cultural da antiguidade ocidental] - ...não é mais a escrava oriental, é a divindade doméstica, é a guarda do lar, honra do pai e do esposo. ...O fogo sagrado das Vestais era símbolo da fé e do casto amor ...do amor à pátria e da religião do lar. ...Tal era a religião de Roma e foi a Magia deste tipo de moral que fez de Roma o centro do mundo; mas quando o casamento deixou de ser sagrado, a decadência não estava longe.


Monastérios

Numa, iniciado nas leis mágicas e conhecendo as influências da vida comum, instituiu colégios de sacerdotes e de augúrios, e os submeteu a regras; estes foram os primeiros modelos dos monastérios, um dos grandes poderes da religião. Já há muito tempo, na Judéia, os profetas se reuniam em círculos simpáticos e faziam em comum a inspiração e a prece. Numa ..instruiu seus sacerdotes na arte dos augúrios, isto é, revelou a eles uma certa teoria dos pressentimentos e da segunda vista, determinada por leis secretas da natureza.

As perturbações físicas da atmosfera têm, muitas vezes, causas morais. As revoluções se traduzem no ar por grandes borrascas e a respiração dos povos agita os céus. O bom êxito marcha com as correntes elétricas ..."Há alguma coisa no ar", diz o povo com seu instinto profético. Os arúspices e augúrios ensinavam a ler os caracteres impressos na luz astral e reconhecer os vestígios das correntes e das revoluções astrais. Eles sabiam porque os pássaros voam isolados ou se reúnem, as influências que os fazem ir para o norte ou para o sul, oriente ou ocidente...


Tradições

O calendário religioso de Numa é calcado no calendário dos antigos magos. É uma série de festas e mistérios que lembram toda a doutrina secreta dos iniciados... [e sua influência resiste nos dias atuais]. ...Como os romanos de Numa, santificamos ainda por abstinência os dias consagrados à lembrança da geração e da morte mas para nós, o dia de Vênus (sexta-feira) é santificado pelas expiações do Calvário. [Entre cristãos católicos a sexta-feira é o dia das orações do terço dedicadas os mistérios dolorosos ou da Paixão de Cristo].

O dia sombrio de Saturno (sábado) é o dia do repouso do Cristo em seu túmulo, antes da ressurreição, no domingo, dia do Sol. O mês que os romanos consagravam à Maia, ninfa da juventude e das flores, dedicamos hoje a Maria a rosa mística, o livro da pureza, a celeste mãe do Salvador. Assim, nossos costumes religiosos são antigos como o mundo, nossas festas assemelham-se às de nossos pais e o Salvador dos cristãos não suprimiu nada das belezas simbólicas e religiosas da antiga iniciação; ele veio, como ele mesmo dizia, não para destruir a lei, mas para cumpri-la.

 

 

Capítulo VI - Superstições

As superstições são formas religiosas que sobrevivem às idéias perdidas. Todas têm uma razão de ser, uma verdade que ninguém conhece mais ou que se transfigurou. A palavra, do latim superstes, significa "o que sobrevive" - são os restos materiais das ciências ou das opiniões antigas.

A multidão, sempre mais instintiva que pensante ...dificilmente muda de hábitos. Quando se quer combater as superstições, ao povo parece que estão atacando a religião. Por isso, São Gregório, um dos maiores Papas da cristandade, não queria que suprimissem as práticas. Ele escreveu aos seus missionários:

"Purificai os templos mas não os destruam porque enquanto o povo vir subsistir seus antigos lugares de orações, para estes lugares ele vai se dirigir pelo hábito e assim conquistareis as pessoas mais facilmente para o culto ao verdadeiro Deus. Os bretões, fazem festins e sacrifícios em certos dias. Deixai-lhes os festins e suprimiremos somente os sacrifícios; deixai-lhes a alegria de suas festas, mas de pagãs que eram, tornar-se-ão cristãs."

A religião [católico-cristã] guardou quase todos os nomes dos costumes piedosos que ela substituiu pelos santos mistérios. Os antigos celebravam todos os anos um banquete chamado "caristia"; para este banquete convidavam as almas de seus antepassados ...a Eucaristia (missa), a substituiu as "carestias" e nós comungamos nas Páscoas com todos os nossos amigos da terra e do céu. Longe de favorecer por semelhantes processos as antigas superstições, o cristianismo restituía a alma e a vida aos sinais das crenças universais. A Magia, esta ciência da Natureza que se prende tão de perto à religião, visto que iniicia os homens nos segredos da divindade, a Magia vive ainda nos sinais hieroglíficos e nas tradições.

[Sobre alimentação, por exemplo] ...Os magos abstinham-se da carne de certos animais e não bebiam sangue. Moisés diz que a alma dos animais se acha unida a eles e que não devemos nos alimentar das almas dos animais. Estas almas animais ficam no sangue como luz astral coagulada e corrompida tornando tal sangue origem de uma série de moléstias. Porfírio adverte: "Quando a alma de um animal é separada do corpo com violência, ela não se afasta e, como as almas humanas dos que morreram violentamente, a alma animal fica perto do corpo ...ficam ali, retidas por simpatia".


Crenças

Gregos e romanos acreditavam em presságios. Entre os romanos, especialmente, tudo era presságio ...Se trovejava à esquerda ou à direita, o augúrio era auspicioso ou desgraçado. Os espirros eram presságios ... Um calhau em que se tropeçava, o grito de um mocho, o ladrar de um cão, um vaso quebrado, uma mulher velha que vos olhava ...Estes terrores vãos tinham por princípio a ciência mágica da adivinhação, que não despreza nenhum indício porque um fato de aparência irrelevante pode ser parte de uma série de outros fatos que, encadeados entre si, resultam em ocorrência relevante.

A tradição mágica romana ensina, por exemplo, que as influências atmosféricas que fazem os cães ladrar são mortais para certos doentes; que a presença e o giro dos corvos anunciam cadáveres abandonados, o que é sempre de sinistro augúrio até porque, os corvos são habituais frequentadores de lugares que abrigam morte e suplício. A passagem de certos pássaros anuncia invernos rigorosos; outros, por gritos lastimosos, dão sinal das tempestades. Os romanos eram também grandes observadores de sonhos e a arte de explicá-los relaciona-se à ciência [conhecimento] da luz astral. ...O sonho é uma lembrança de imortalidade nesta morte de todas as noites que chamamos sono [porque durante o sono, não nos sentimos no mundo físico ordinário e, no entando, continuamos a sentir que existimos.]


Médiuns

Os médiuns são, em geral, seres doentes ...que atraem a luz [astral] como os abismos atraem as águas dos turbilhões. ...Estas naturezas ...mal equilibradas, em que o corpo fluido é informe, projetam à distância sua força de atração e criam em si mesmos membros suplementares e fantásticos. ...Poder-se-ia dizer que os médiuns são criaturas em que a morte luta visivelmente contra a vida.O mesmo se dá com os fascinadores, os lançadores de sorte, as pessoas que têm mau olhado e os feiticeiros. São vampiros, quer voluntários, quer involuntários. Eles atraem a vida que lhes falta e perturbam o equilíbrio da luz Se o fazem voluntariamente são malfeitores que é preciso punir; se o fazem involuntariamente, são doentes perigosos que as pessoas delicadas e nervosas devem evitar.

 

 

Capítulo VII - Monumentos Mágicos

 



Colosso de Rhodes

imagem fonte: www.capurromrc.it/mappe/!28rodiporto.html

Neste capítulo curto e obscuro, o autor trata da simbologia presente nas estruturas das conhecidas "Sete Maravilhas do Mundo Antigo", a saber: 1. as Pirâmides do Egito; 2. os Jardins Suspensos da Babilônia; 3. o Farol de Alexandria; 4. a Estátua Júpiter Olímpico; 5. o Colosso de Rodes; 6. o Templo de Diana; 7. O Sepulcro do Rei Mausolo. Em A Doutrina Secreta, da teósofa H.P. Blavatsky, vários trechos são muito mais esclarecedores quando tocam na simbologia que envolve estes monumentos deixando claro porque eles são considerados verdadeiros livros arquitetônicos onde, em cada detalhe, estariam registrados conhecimentos capazes de explicar todos os mistérios da humanidade.


As pirâmides, dedicadas a Hermes Trimegisto, triangulares nos lados e quadradas na base representavam a ciência da Natureza. [Sua estrutura reúne o Ternário e Quaterário, ou seja, a Trindade Criadora da realidade das idéias (mundo psicotrônico, sutil) e a realidade das formas materiais correspondentes às idéias ou o mundo material, terreno, denso.]

O Colosso de Rodes era um pentaclo (símbolo) do Sol. ...O Templo de Diana, em Éfeso, era feito à imagem do Universo. ...O túmulo de Mausolo era o pentaclo da Vênus. ...Júpiter olímpico era o (símbolo) de Júpiter. ... Os "muros da Babilônia" (Jardins Suspensos) eram de Marte. Enfim, o templo de Salomão [que o autor coloca no lugar do Farol de Alexandria] - esse pentaclo universal e absoluto ...era, para a gentilidade, pentaclo terrível de Saturno. [Vemos que o autor não esclarece quase nada sobre suas idéias em relação aos significados ocultos nas Sete Maravilhas).

Link relacionado: As Sete Maravilhas do Mundo Antigo

 

 

 

LIVRO III
SÍNTESE E RALIZAÇÃO DIVINA
DO MAGISMO PELA REVELAÇÃO CRISTÃ


Capítulo I - Cristo Acusado de Magia Pelos Judeus

Nas primeiras linhas do evangelho segundo São João há uma palavra que a Igreja católica não pronuncia nunca sem dobrar os joelhos: "O verbo se fez carne". ...Considerado como a expressão perfeita, realizada e viva da Cabala, isto é, da tradição primitiva, o Cristianismo ainda é desconhecido e por iso, o livro cabalístico e profético do Apocalipse continua inexplicado. ...Todo mundo sabe que com a vinda de Jesus os oráculos cessaram no mundo inteiro e uma voz exclamou sobre o mar: "O grande Pã morreu!" ...É preciso dizer a mesma coisa dos prestígios, que foram desdenhados quando se produziram os verdadeiros milagres ...Os milagres tornaram sobrenaturais como as virtudes que os produzem.

...No Talmude [os judeus] contam que Jesus Ben-Sabta, ou o filho da separada, tendo estudado no Egito os mistérios profanos ergueu em Israel uma falsa pedra angular e arrastou o povo à idolatria. Eles reconhecem, todavia, que o sacerdócio israelita não tem razão para amaldiçoá-lo com as duas mãos, de acordo com o preceito talmudista que um dia aproximará Israel do Cristianismo: "Não amaldiçoeis nunca com as duas mãos, para que vos reste sempre uma para perdoar e abençoar".

 

 

Capítulo II - Verdade do Cristianismo Pela Magia

Submeter as coisas da fé aos preceitos da ciência é uma coisa tão ridícula como submeter as ciências às obediência cega da fé; não cabe ao teólogo a demonstração de um teorema como a um sábio não convém discutir, em nome da ciência, pró ou contra os mistérios do dogma. Pergunta à Academia das Ciências se é matematicamente verdadeiro que há três pessoas em Deus e se pode ser provado por meio das ciências que Maria, mãe de Deus, foi concebida sem pecado? A Academia das Ciências recusará e com razão; os sábios não têm nada a ver com isso, que é do domínio da fé. Um artigo de fé não se discute, crê-se ou não nele; mas ele é de fé porque escapa ao exame da ciência.

A verdade em ciência se prova por demonstrações exatas; a verdade em religião se prova pela unanimidade da fé e a santidade das obras. ...A prova da fé são as obras. O cristianismo constituiu uma sociedade imensa de homens, tendo a hierarquia por princípio, a obediência por regra e a caridade por lei. ...A Caridade! Grande palavra e grande coisa, palavra que não existia antes do Cristianismo, coisa que é a verdadeira religião no seu todo. O espírito de caridade não é o espírito divino tornado visível sobre a Terra?

O espírito de caridade é Deus, é imortalidade da alma, é a hierarquia, é a obediência, é o perdão das injúrias, é a simplicidade e a integridade da fé. ...A fé que transporta montanhas e que faz suportar o martírio, a generosidade que dá, a eloqüência que fala a linguagem dos homens e dos anjos, tudo isso não é nada sem caridade, diz São Paulo. A ciência pode falhar, ajunta o mesmo apóstolo, a profecia pode cessar, a caridade é eterna.

A magia de luz, a magia do verdadeiro Zoroastro, de Melquisedeque e Abraão, devia cessar com a vinda do grande realizador. Num mundo de milagres os prodígios não deviam ser mais um escândalo, a ortodoxia mágica se transfigurava em ortodoxia religiosa; os dissidentes não podiam ser mais que iluminados ou feiticeiros; o nome mesmo "Magia" devia ser tomado em mau sentido. É sob esta maldição que seguiremos de agora em diante as manifestações mágicas através das idades.

 

 

A Lenda de Simão, o Mago

O primeiro heresiarca de que fazem menção as tradições da Igreja foi um taumaturgo chamado Simão, o Mago. Judeu na origem, supõe-se que nasceu no burgo de Giton no país de Samaria. Teve por mestre o sectário Dositeu, que se dizia enviado de Deus e o Messias anunciado pelos profetas. Simão aprendeu não somente a arte dos prestígios mas ainda certos segredos naturais que pertencem à tradição secreta dos magos: ele possuía a ciência do fogo astral (luz astral). Tinha também o poder de elevar-se no ar (levitação). Ele magnetizava à distância os que nele acreditavam e lhes aparecia sob diversas figuras. As coisas naturalmente inanimadas moviam-se ao redor dele ...e muitas vezes, quando ele queria entrar em uma casa ou dela sair, as portas rangiam, agitavam-se e acabavam abrindo-se por si mesmas.

Simão operou estas maravilhas diante dos nobres do povo de Samaria; elas foram exageradas e o taumaturgo passou por um ser divino. Como ele alcançou tal poder por excitações que perturbavam sua razão, ele mesmo julgou-se digno de honras divinas e desejou as adorações do mundo inteiro. Suas crises, ou êxtases, produziam sobre seu corpo efeitos extraordinários. Ora viam-no pálido, encovado, alquebrado, qual um velho que vai morrer; ora, um fluido luminoso revigorava seu sangue tornando suave seu rosto de modo que parecia rejuvenescido de repente. ...Por toda parte só se falava de seus milagres e ele tornou-se um ídolo dos judeus de Samaria e dos padres circunvizinhos.

Mas os adoradores do maravilhoso são geralmente ávidos de emoções novas ...O apóstolo São Felipe foi pregar o Evangelho em Samaria e angariou uma nova corrente de entusiasmo. Simão perdeu todo o seu prestígio e sentindo-se abatido por sua moléstia, que tomava por uma impotência. Julgando-se superado por magos mais sábios que ele, decidiu unir-se aos apóstolos para estudar e apoderar-se de seus segredos. Simão, certamente, não era iniciado em Alta Magia; se fosse, saberia que para dispor das forças secretas da Natureza, de modo a dirigí-las sem ser quebrado por elas, é preciso ser um sábio e um santo.

Privado de suas vertigens, Simão estava infeliz. Ninguém se conforma em voltar a ser um simples mortal depois de ter se sentido como um Deus. Para recuperar os poderes perdidos, o feiticeiro submeteu-se a todos os rigores da austeridade apostólica: fez vigílias, orou, jejuou, mas os prodígios não voltaram. Finalmente, ofereceu dinheiro a São Pedro. O chefe dos apóstolos o repeliu com indignação. O mago deixou depressa esta sociedade de homens tão desinteressados e com o dinheiro que São Pedro recusou, comprou uma escrava chamada Helena.

Ele se apaixonou intensamente pela mulher e a paixão, enfraquecendo-o e exaltando-o, fez voltar suas catalepsias e seus fenômenos mórbidos. Foi assim que Simão forjou, sobre si mesmo, uma mitologia cheia de reminiscências mágicas misturada a devaneios eróticos. Põs-se a viajar, como os apóstolos, levando consigo sua Helena. A doutrina do novo "iluminado" pregava que a primeira manifestação de Deus fora um esplendor perfeito, reflexo do Criador. Este sol de almas era ele, Simão, e reproduzindo a criação de seu Pai, seu reflexo era Helena, que ele chamava Selene, para significar Lua.

...Simão fazia-se chamar "santo"; tornou-se um "personagem" e voltou à Roma, onde o imperador, curioso de todos os espetáculos extraordinários, estava disposto a acolhê-lo. Este imperador era Nero. ...Segundo as lendas, foi para preservar os judeus da dourina de Simão que São Pedro dirigiu-se para Roma. Nero soube depressa ...que um novo taumaturgo israelita chegava para fazer guerra ao feiticeiro e resolveu confrontar os dois, porque deleitava-lhe a idéia do embate.

— Que a paz esteja convosco! diz entrando o príncipe dos apóstolos.

— Nada temos a fazer com tua paz — responde Simão — é pela guerra que a verdade se descobre. A paz entre adversários é o triunfo de um e a derrota do outro.

Pedro replicou

— Por quê recusas a paz? Foram os vícios dos homens que criaram a guerra; a paz acompanha sempre a virtude.

— A virtude é a força e a destreza — diz Simão. Eu afronto o fogo, elevo-me nos ares, ressucito as plantas, mudo a pedra em pão; e tu, que fazes?

— Oro por ti — responde São Pedro — para que não pereças vítima de teus prestígios.

— Guarda tuas preces; elas não subirão no mesmo instante que eu aos céus.

Neste momento, o Mágico precipita-se por uma janela, elevando-se nos ares. São Pedro estava de joelhos e orava; de súbito, Simão grita e cai; levantaram-no ainda vivo, com as coxas quebradas; mas não se recuperou e morreu em decorrrência da gravidade do acidente. Nero mandou encarcerar São Pedro, que lhe parecia ser um mago menos divertido que Simão.



Herança de Simão: a seita dos menandrinos

A seita de Simão não se extinguiu com ele. Seu sucessor foi um de seus discípulos, chamado Menandro de onde derivou o nome destes sectários: são os menandrianos. Menandro contentava-se com o papel de profeta; quando batizava seus prosélitos um fogo visível descia sobre a água; ele lhes prometia a imortalidade da alma e do corpo por meio deste banho mágico. Ainda no tempo de São Justino, havia meandrinos que se julgavam imortais. A morte de uns não desenganava aos outros, porque o defunto era imediatamente excomungado e considerado como falso irmão. Os menandrinos consideravam a morte como verdadeira apostasia. ...Os que sabem até onde pode chegar a loucura humana, não se admirarão se lhes informarmos que neste mesmo ano, de 1858, existiam ainda na América e na França da seita dos menandrinos.

 



The Hell - detalhe
Mosaico de Coppo Di Marcovaldo 1225 | 1274
Batistério de Florença
IN http://www.wga.hu/art/c/coppo/the_hell.jpg

 

Capítulo III - Do Diabo

O Cristianismo, que compreende Deus como o amor mais puro e o mais absoluto, define claramente o espírito oposto a Deus. É o espírito ...de ódio, é Satã. Mas este esírito não é um personagem que se deva compreender como uma espécie de "deus da maldade". [Satã] ...é uma perversidade [uma imperfeição] comum a todas as inteligências desencaminhadas. "Eu me chamo Legião — diz ele no Evangelho — porque somos uma multidão".

A personificação e quase divinzação de Satã é um erro que se liga ao falso Zoroastro [doutrinas corrompidas do Zoroastrismo] ...aos magos materialistas da Pérsia. Eles transformaram em deuses dois pólos do mundo intelectual. ...A este respeito [sobre o mal], expomos aqui qual é o ensino secreto dos iniciados das ciências ocultas.

...O grande agente mágico, chamado justamente Lúcifer, porque é veículo da luz e receptáculo de todas as formas, é uma força intermediária onipresente em toda a Criação ...e serve tanto para criar quanto para destruir [ou, serve para FORMAR e para TRANSFORMAR]. ...A queda de Adão [alegoria] foi uma embriaguês erótica que tornou sua geração [existência] escrava desta luz fatal. ...Toda paxão amorosa que invade os sentidos é um turbilhão dessa luz que nos arrasta parao golfo da morte. ...A loucura, as alucinações, as visões, os êxtases, são uma exaltação perigosa dessa luz interior.

Essa luz é da natureza do fogo, cujo emprego inteligente aquece e vivifica, cujo excesso, ao contrário, queima, dissolve e aniquila. Essa luz, enquanto devoradora ...seria o fogo do inferno, a serpente da lenda. ...As ações do mal dirigidas pela vertigem da luz astral, as miragens enganadoras de prazer, de riqueza e de glória ...seriam as pompas do inferno. Tudo o que entrega nossa alma à fatalidade das vertigens é, de fato, infernal ...[desordem], ou seja, o oposto do que visto como céu, reino da ordem.

Os possessos do Evangelho fugiam diante de Jesus Cristo, os oráculos calavam-se diante dos apóstolos e os doentes alucinados manifestavam repugnância pelos sábios e iniciados. A cessação dos oráculos e das possessões era uma prova do triunfo da liberdade humana sobre a fatalidade. Quando as moléstias astrais se mostram de novo, é um sinal funesto que anuncia o enfraquecimento das almas. O célebre criminalista Torreblanca, que estudou a fundo as questões da magia diabólica [e sua relação com o crime], descreveu precisamente todos os fenômenos de perturbação astral. No sumário do capítulo XV da Magia Operatória [...Torreblanca, atribuindo doenças à ação do demônio permite entender que "o demônio", é uma perturbação da inteligência que dá causa a ações ditas demoníacas.] Eis parte do sumário do livro:

O esforço contínuo do demônio mira levar-nos ao erro.

O demônio engana os sentidos perturbando a imaginação...

e Quando o equilíbrio da imaginação e da razão é destruído por uma causa mórbida, sonha-se acordado e pode-se ver com aparência real o que não existe...

10º As visões saem de nós e são reflexos de nossa própria imagem.

11º Os antigos conheciam duas moléstias que eles chamavam, a uma frenesi e à outra coribantismo. A primeira fazendo ver formas imaginárias; a segunda fazendo ouvir vozes e sons que não existem...


Os enfermos de perversão astral são inclinados ao mal e entristecem-se com a alegria dos outros. É também a perversão astral ...que produz os abusos sexuais. Cada um dos vícios humanos e terrenos personificou-se em um demônio que é uma imagem negativa, desfigurada da divindade. São ídolos da morte:


Moloch é a fatalidade que devora os filhos.

Satã e Nisroch são "deuses" do ódio, da fatalidade e do desespero.

Astartéia, Lilith, Naema e Astaroth são os ídolos da devassidão e do aborto.

Adramalaque é o "deus" do assassínio.

Belial produz a revolta e a anarquia.


Para os iniciados, [o diabo] não é uma pessoa; é uma força [criadora que seres animados e inteligentes usam livremente, para bem e para o mal] ...[Em sua] ...forma mitológica e cornuda, [é o ] deus Pã; daí veio o bode do sabá [e as figurações desta força que acabam se impondo às mentes mais simplórias que, não entendendo as idéias abstratas sobre o mal, acolhem facilmente representações concretas dotadas de forma e personalidade].

 

 

Capítulo IV - Os Últimos Pagãos

Este é mais um dos capítulos onde Eliphas Levi promete e não cumpre. O autor fornece um quase nada em termos de dados biográficos das personagens sobre as quais pretende escrever: Apolônio de Tiana (ou Thyana), Juliano, o Imperador, Jâmblico e Máximo de Tiro. No sumário, também consta o subtítulo "Começo das sociedades secretas e práticas proibidas", tópico praticamente inexistente no corpo do texto. Os trechos escolhidos seguem abaixo:

 



Apolônio de Thyana

imagem fonte: http://www.telecable.es/personales/matius/apolonius.jpg

 

Apolônio de Thyana

Diante da ação civilizadora do Cristianismo nascente, as paixões amigas da desordem entraram em ação. O politeísmo expirante [moribundo] pediu forças à magia dos antigos santuários; aos mistérios do Evangelho opuseram-se os de Eleusis. Apolônio de Tiana foi posto em paralelo com o Salvador do mundo [Jesus]; Filóstrato encarregou-se de fazer uma lenda a esse deus novo. ...A história de Apolônio por Filóstrato, absurda se quisermos tomá-la ao pé da letra, é muito curiosa ...É uma espécie de Evangelho pagão oposto aos Evangelhos do Cristianismo. (p 163)

Toda a vida de Apolônio, escrita por Filóstrato segundo Damis, o Assírio [principal discípuo de Apolônio] é um tecido de apólogos e parábolas. ...Apesar de sua grande ciência e de suas brilhantes virtudes Apolônio não era o continuador da escola hierárquica dos magos. Sua iniciação vinha das Índias e ele, para inspirar-se, entregava-se às práticas enervantes dos Brâmanes; ele pregava abertamente a revolta e o regicídio: era um grande caráter desviado. (p 166)

[Ao invés de falar de Apolônio do ponto de vista histórico biográfico, Levi se detém em descrever determinados conteúdos da biografia escrita por Filóstrato, Vida de Apolônio a fim de demonstrar que Apolônio era um Iniciado. Fervoroso defensor do cristianismo católico romano, Eliphas Levi preocupa-se em demonstrar a inferioridade de Apolônio comparado a Jesus. ]

 

Imperador Juliano

A figura do imperador Juliano nos aparece mais poética ...que a de Apolônio. Juliano ...queria transfundir a seita nova do Cristianismo no corpo do helenismo envelhecido ...Para contrabalançar a potência realizadora do dogma cristão, tomou também a Magia Negra em seu auxílio e entregou-se ...a tenebrosas evocações. Seus deuses, cuja beleza e juventude queria ressucitar, apareceram-lhe velhos e decrépitos, inquietos da vida e da luz e prestes a fugir diante do sinal da cruz!


Depois da morte deste imperador, a idolatria e Magia foram envolvidas numa mesma reprovação universal. Foi então que nasceram estas sociedades secretas de adeptos às quais se ligaram mais tarde os gnósticos e os maniqueus; sociedades depositárias de uma tradição misturada de verdades e erros.

Como se vê, o autor trata da vida destes "Ultimos Pagãos" de forma superficial e literária. Informações sobre Jâmblico e Máximo de Éfeso simplesmente não constam no capítulo e estes nomes são mencionados de passagem em um parágrafo exíguo sobre o imperador Juliano. O leitor fica curioso; fica sedento de dados mais precisos. Neste estudo, buscaremos resolver este problema fornecendo links que conduzem a páginas que contêm biografias bem mais completas de Apolônio. Uma delas, hospedada no site Sobrenatural, foi extraída da edição on-line de um dos poucos escritos atribuídos a Apolônio de Thyana que chegou aos nossoa dias: o Nuctameron, livro que também pode ser obtido na internet.

I - Apolônio de Thyana IN www.sobrenatural.org
II - Apolônio de Thyana IN Orion.med

 

 

Capítulo V - Das Lendas



São Cipriano de Antióquia e Justina, mártires do cristianismo.

São Cipriano

Antióquia - Justina era uma jovem e bela virgem pagã, filha de um sacerdote dos ídolos. Sua janela dava para o pátio vizinho da igreja dos cristãos. Todos os dias ela ouvia a voz pura de um diácono ler bem alto os santos Evangelhos. Esta palavra desconhecida tocou e revolveu-lhe o coração. Uma tarde, sua mãe, vendo-a pensativa, insisitiu para que lhe confiasse as preocupações. Justina lançou-se aos seus pés dizendo-lhe: "Mãe, abençoai-me ou perdoai-me, eu sou cristã".

A mãe chorou abraçando sua filha e foi procurar o esposo a quem confiou o que acabava de saber. Eles adormeceram e tiveram o mesmo sonho. Uma luz divina descia sobre eles e uma voz doce os chamava dizendo-lhes: "Vinde a mim, vós que viveis aflitos e eu vos consolarei; vinde, os amados de meu Pai e eu vos darei o reino que vos está preparado desde o começo do mundo."

Ao amanhecer, o pai e a mãe abençoaram sua filha. Os três fizeram-se inscrever entre os catecúmenos e depois das provas de costume foram admitidos ao santo batismo. Justina voltava branca e radiosa da igreja, entre sua mãe e seu velho pai, quando por ela passaram dois homens sombrios embrulhados em seus mantos: era o mago Cipriano e seu discípulo, Acládio. Os homens pararam deslumbrados pela visão da moça. Justina não os notou e entrou em casa com sua família.

No laboratório de Cipriano, uma vítima degolada palpita perto de um estrado fumegante. Em frente ao mago, apareceu então o gênio das trevas:

— Eis-me aqui; por que me chamas-te? Fala! Que queres?

— Amo uma virgem.

— Seduze-a.

— Ela é cristã.

— Denuncia-a.

— Eu quero possuí-la e não perdê-la; podes fazer alguma coisa em meu favor?

— Eu seduzi Eva, que era inocente e que conversava todos os dias familiarmente com Deus. Se tua virgem é cristã, fica sabendo que fui eu que fiz crucificar Jesus Cristo.

— Logo, tu me entregarás a jovem?

— Toma este ungüento mágico; besuntarás com ele o limiar da porta dos aposentos da moça e do resto eu me encarregarei.


Justina dorme em seu quartinho casto e severo. Cipriano posta-se à porta murmurando palavras sacrílegas e procedendo a ritos horríveis. O demônio coloca-se à cabeceira da rapariga e sopra-lhe sonhos voluptosos cheios da imagem de Cipriano que ela crê encontrar ainda ao sair da igreja; mas desta vez ela o contempla, escuta o que ele diz e perturba-se. Ela se agita e desperta. Faz o sinal da cruz e o demônio desaparece. O sedutor que faz sentinela à porta aguarda-a inutilmente toda a noite.

No dia seguinte ele recomeça suas evocações e faz amargas censuras ao cúmplice infernal. Este, confessa sua impotência. Cipriano o expulsa e faz aparecer um demônio de ordem inferior. O recém convocado transforma-se alternadamente em formoso mancebo e moça para tentar Justina por carícias e conselhos. A virgem vai sucumbir mas seu anjo da guarda a assiste; ela faz o sinal da cruz e expulsa o mau espírito. Cipriano invoca, então, o rei dos infernos e vem Satã em pessoa. Ele acomete Justina com todas as dores de Jó e espalha uma peste terrível em Antióquia, mandando os oráculos dizerem que a peste cessará quando Justina acalmar Vênus e o amor ultrajados. Justina ora publicamente pelo povo e a peste cessa.

Vencido mais uma vez, Cipriano obriga Satã a confessar a onipotência do sinal da cruz e o afronta, marcando-se com este sinal. Ele abjura a magia, torna-se cristão, chega a bispo e reencontra Justina num mosteiro de virgens. Eles se amam, então, com o puro e durável amor da celeste caridade; a perseguição, porém, os atinge: são presos juntos e mortos no mesmo dia, consumando no seio de Deus um casamento místico e eterno. (p 167-169)



Lenda de Apuleio

Eis o assunto do livro de Apuleio: ele é um viajante de passagem pela Tessália, país dos encantamentos. Ali recebe a hospitalidade de um homem cuja mulher é feiticeira. Seduz a criada desta mulher pretendendo, por este meio, obter segredos de magia. A criada promete entregar ao amante uma poção por meio da qual a feiticeira se transforma em pássaro porém engana-se com as caixas e Apuleio se vê mudado em Asno.

A amante desastrada o consola dizendo-lhe que para retomar sua forma humana basta comer rosas, que é a flor da iniciação. Mas onde achar rosas à noite? É preciso esperar o dia seguinte. A criada conduz o asno à estrebaria. Aparecem ladrões que roubam o asno. Torna-se difícil aproximar-se de rosas, que não são feitas para burros; sempre que tenta, os jardineiros expulsam-no a pauladas. Apuleio vai perdendo as esperanças mas, certa ocasião, tendo adormecido, aparece-lhe em sonho a deusa Ísis e lhe promete que seu sacerdote, prevenido por uma revelação, lhe dará rosas durante as solenidades de sua festa, que está próxima.

Chega o dia da festa: homens mascarados seguem à frente; ...depois vêm as mulheres espalhando flores; por fim, as imagens dos deuses, em número de três, seguidas pelo grande hierofante, que conduz, não uma imagem, mas o símbolo de Ísis, uma bola de ouro com o caduceu em cima. Lúcio Apuleio vê na mão do sacerdote uma coroa de rosas. Aproxima-se e não é repelido. Come as rosas e recupera a natureza humana.

 

 

Capítulo VI - Pinturas Cabalísticas e Emblemas Sagrados

 

Sobre a Igreja Primitiva

A Igreja primitiva, obedecendo ao preceito formal do Salvador, não entregava seus mais santos mistérios às profanações da multidão. Ao batismo e à comunhão só se era recebido por meio de iniciações progressivas. ...As imagens eram então menos numerosas e, sobretudo, menos explícitas. Abstinham-se de reproduzir a figura do Salvador; as pinturas das catacumbas são, em sua maior parte, emblemas cabalísticos.


Gnósticos

O nome "gnóstico" nem sempre foi um nome proscrito na Igreja. Os padres ...empregaram muitas vezes esta denominação para designar o cristão perfeito ...Os falsos gnósticos foram todos rebeldes à ordem hierárquica ...quiseram nivelar a ciência, vulgarizando-a ...concedendo licença à mística das paixões sensuais em detrimento da sobriedade cristã e da obediência às leis ...Produzir êxtases por meios físicos e substituir a santidade pelo sonambulismo, tal foi sempre a tendência das seitas caínicas continuadoras da Magia Negra da Índia. A Igreja devia reprová-las com energia...

Esperando escapar à hierarquia pelo milagre comum ...os gnósticos ...eram operadores de prodígios, substituindo o culto regular pelos ritos impuros da Magia Negra, fazendo aparecer sangue em vez do vinho eucarístico...

A intrusão da mulher no sacerdócio foi sempre o sonho dos falsos gnósticos porque nivelando assim os sexos, eles introduziam a anarquia na família e punham, para a sociedade, uma pedra de tropeço. O sacerdócio real da mulher é a maternidade e o culto desta religião do lar é o pudor.


Manés - Maniqueísmo

Depois do panteísmo polimorfo dos gnósticos, veio o dualismo de Manés [que] ...formulou em dogma religioso a falsa iniciação dos pseudo-magos da Pérsia. O mal, personificado, tornou-se rival de Deus. ...[Conceberam] um rei da Luz e um rei das Trevas...[e foi netsa época que começou a institucionalização desta crença] ...esta idéia funesta da soberania e ubiqüidade de Satã.

 

INFORMAÇÃO COMPLEMENTAR:

O maniqueísmo, tal como o gnosticismo e outras correntes doutrinárias religiosas, está relacionado entre os chamados "movimentos heréticos" dos primeiros séculos da Era Cristã. O encontro do Cristianismo com a filosofia neoplatônica em várias "heresias", ou seitas de perdição, conforme São Pedro e São Paulo; entre elas, a gnose é mais conhecida. Entre os séculos III e IV surgiu o Maniqueísmo, um sistema de pensamento elaborado pelo neoplatonico Mani (ou Manés). Suas influências eram o budismo e o Zoroastrismo. Pregava a existência da dualidade, dois princípios, o bem e o mal. A matéria era essencialmente má. Santo Agostinho chegou a pertencer a esta seita.

Outras heresias proliferaram. O Arianismo, criado por Ário, bispo de Alexandria, que pregava o Cristo criatura, eliminando assim o mistério da divindade coexistente com a natureza humana. O Nestorianismo, heresia de Nestório, negava a Maria a condição de Mãe de Deus. O monofisismo, de Eutiques, negava a natureza humana de Cristo. O pelagianismo, negava o pecado original.

Fonte: ENCICLOPÉDIA BARSA, vol VII - p 186.
São Paulo: Melhoramentos | Britânica Editores, 1966.

 

 

Capítulo VII - Filósofos da Escola de Alexandria

Amônio Sacas, Plotino, Porfírio, Proclo, são grandes nomes paraa ciência e para a virtude. Sua teologia e moral eram elevadas, seus costumes austeros. Mas a maior e a mais tocante figura desta época, a mais brilhante estrela desta plêiade, foi Hipátia, filha de Teon. ...Na escola de Hipátia formou-se Sinésio de Cirene, que foi mais tarde bispo de Ptolemaida, um dos mais sábios filósofos e o maior poeta do Cristianismo dos primeiros séculos.

Sinésio de Cirene escreveu:

O povo escarnecerá sempre das coisas difíceis de compreender, ele tem necessidade de imposturas.

Um espírito amigo da sabedoria e que contempla de perto a verdade é forçado a mascará-la para que seja aceita pelas multidões. ...Se o olho recebesse de repente uma luz muito abundante, ele seria deslumbrado ...No meu entender, as ficções são necessárias ao povo e a verdade se torna funesta aos que não têm força para contemplá-la em todo o seu fulgor. ...A verdade deve ser mantida em segredo e as multidões têm necessidade de um ensino proporcional à sua imperfeita razão.

O livro mais notável de Sinésio é um Tratado dos Sonhos. ...No pensar de Sinésio, o estado de sonho prova a especialidade e imaterialidade da alma, ...que cria campinas, palácios ou cavernas sombrias segundo suas afeições e seus desejos. ...Alguns críticos atribuem também a Sinésio livros notáveis que trazem o nome de Saint Dinis, o Areopagita ...[Entre tais volumes destaca-se] ...O tratado dos nomes divinos ...Deus, diz o autor, é o princípio infinito e indefinível perfeitamente uno e indivisível mas nós lhe damos nomes que expressam nossas aspirações para esta perfeição divina; o conjunto desses nomes, suas relações com os números, compõem o que há de mais elevado no pensamento humano e a teologia é menos a ciência de Deus que a de nossas aspirações mais sublimes.

 

FIM DOS VOLUMES II e III
4 Retorno:
Índice de Volumes

 

Bibliografia do Pesquisador

BABILÔNIA BRASIL. In <http://www.angelfire.com/me/babiloniabrasil/magic1.html> — acessado em 27/05/2005

BLAVATSKY, Helena Petrovna. Doutrina Secreta. São Paulo: Pensamento, 2003.

CULTURE OF IRAN. IN <http://www.cultureofiran.com/> acessado em maio de 2005

ENOCH. O livro de Enoch, o Profeta: a revelação dos anjos. [Trad. Getúlio Elias Schanosky Jr.] — São Paulo: Madras, 2004.

GRANDES IMPÉRIOS E CIVILIZAÇÕES Enciclopédia. Mesopotâmia vol. I. Madrid: Ed Prado, 1997.

JOCASTIAN, Ayisha. O Livro de Nod. Edição on line.
In<
http://pwp.netcabo.pt/dtangel/Livro_de_nod.pdf> acessado em 21/02/2005

MacNALL BURNS, Edward. História da Civilização Ocidental, vol. I. Porto alegre: Globo, 1975.

PAPUS (Gerard Anaclet Vincent Encausse). Tratado Elementar de Magia Prática. São Paulo: Pensamento, 1995.

SOUTO MAIOR, A. História Geral. As civilizações iranianas, p 43. São Paulo: Editora Nacional, 1976.

 

 

 

 

pesquisa - seleção - adatapção e comentários: Mahajah!ck | outubro - 2005